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Publicação

400 anos de resistência: por que conceder direitos aos trabalhadores ainda assusta o Brasil?

Mariana Leandro Franco12 de outubro de 2026

Para responder esta questão é preciso retornar ao Brasil desde 1500. A razão para sempre ter alguém para esbravejar “A economia vai acabar!” quando são propostas melhorias das condições de trabalho, não é por acaso.

Laerte | Folha de São Paulo - 14/11/2024

O Brasil, em sua origem, estruturou-se sobre a posse do trabalhador: desde o início da colonização a mão de obra escrava foi o principal pilar das relações de trabalho no período colonial. Primeiro houve a escravização dos indígenas pelos colonos portugueses e, depois, dos africanos trazidos à força para trabalhar nos engenhos de açúcar. Isso produziu uma mentalidade que perdurou por séculos: trabalho braçal era coisa de escravo e quem trabalhava com esforço físico não merecia apreço. A elite colonial nunca precisou “sujar as mãos” pois detinha terras, escravos e poder político. Explorar o outro não era crime, pelo contrário, era um indicativo de status social. Dito isso, a escravidão foi aquilo que estruturou a economia, a hierarquia social e o poder político no Brasil desde o período colonial.

Lavadeiras à beira do rio. Negociantes paulistas de cavalos. - Jean Baptiste Debret, 1835.

Em 1888 houve a abolição da escravidão. A partir daí tudo iria mudar, não é mesmo? Não mudou. A abolição brasileira foi a última de todo o mundo ocidental e das Américas e ocorreu sem nenhuma política de integração social dos libertos: sem terra, sem escola, sem salário. Foram deixados à própria sorte, indo morar em favelas ou voltando a trabalhar em condições de precariedade. Em contrapartida, as elites mantiveram suas fazendas, suas riquezas e seus poderes perante a sociedade pós abolição. A naturalização da desigualdade no Brasil é uma das marcas mais duradouras desse processo e é representada na ideia de que o pobre trabalhando muito por pouco é a ordem natural das coisas.

Essa mentalidade chegou inabalada ao século XX. Em 1954, o presidente Getúlio Vargas trouxe o aumento de 100% do valor do salário-mínimo e a reação foi imediata de diversos setores. Federações de indústrias, associações comerciais e a grande mídia da época assinaram manifestos que diziam que as medidas “intranquilizavam as classes produtoras” e, de certo modo, “dar mais dinheiro ao trabalhador seria quase uma revolução comunista”. Além disso, coronéis e tenentes-coronéis do exército também assinaram um manifesto contra o aumento: caso efetivado, os trabalhadores receberiam praticamente o mesmo de um oficial graduado, gerando uma crise de recrutamento. Também alegavam que o ministro do trabalho da época, João Goulart, se recusava a reprimir o movimento sindical – que para os setores conservadores, era inaceitável. O deputado Neiva Moreira, como um dos presentes em encontro com Vargas, relata a resignação do presidente ao dizer que era muito difícil fazer a burguesia ganhar mais dinheiro, concomitantemente, apresenta a ironia de que Vargas tinha ciência de que a cada vez que o salário do trabalhador subia, o mercado interno crescia, as empresas vendiam mais e lucravam mais. E assim ocorreu: apesar da resistência empresarial às mudanças, a economia industrial brasileira cresceu 12% no ano de 1954.

Colagens de Jornal – Reprodução. Central dos Sindicatos Brasileiros, CSB. 18/12/2024.

O enredo repetiu-se décadas depois e se repete hoje. O debate atual sobre o fim da escala 6x1 segue o mesmo roteiro: argumentos como “fim da competitividade”, “aumento de custos para o Brasil” e “inviabilidade econômica” voltam a surgir. A lógica de resistência de setores burgueses de 1888 é a mesma da de 1954, que, por sua vez, se assemelha aos discursos atuais. A herança escravocrata, o mito de que somos uma democracia racial e a crescente desigualdade econômica ainda colocam o trabalho valorizado como uma pauta não efetivamente tratada no país por parte das principais elites tomadoras de decisões. O trabalhador brasileiro carrega quase 400 anos de uma história que ensina, às chibatadas, que pedir menos horas de trabalho é preguiça, quando na verdade é algo que a alta burguesia considera impensável aos subalternos, mas não para si.

Posto isto, a resposta à pergunta que abre este texto está na própria história: o Brasil resiste a conceder direitos aos trabalhadores não porque a economia corra risco, como há 400 anos segue sendo o discurso central, mas devido a uma parcela da elite que nunca deixou de ver o trabalho como algo que não merece valor e o trabalhador, como alguém que deve se contentar com pouco. Toda conquista trabalhista no Brasil foi tomada contra a vontade de quem detinha o poder econômico. E quando a “poeira baixou”, a economia não quebrou: quem mais ganhou foi a sociedade, inclusive aqueles que esperneavam que “iriam quebrar”.

Consulta de dados historiográficos

BBC NEWS BRASIL. Abolição da escravidão em 1888 foi votada pela elite evitando a reforma agrária, diz historiador. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44091474. Acesso em: 18 ago. 2026.

CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO BRASIL (CPDOC/FGV). João Goulart, o aumento do salário mínimo e o Memorial dos Coronéis. Rio de Janeiro: FGV CPDOC. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/getulio-vargas-1954/memorial-dos-coroneis. Acesso em: 18 ago. 2026.

HORA DO POVO. Getúlio e o salário-mínimo. Disponível em: https://horadopovo.com.br/getulio-e-o-salario-minimo/. Acesso em: 18 ago. 2026.

NÓS MULHERES DA PERIFERIA. Entre rios e bicas: a trajetória das lavadeiras brasileiras. Disponível em: https://nosmulheresdaperiferia.com.br/entre-rios-e-bicas-a-trajetoria-das-lavadeiras-brasileiras/. Acesso em: 18 ago. 2026.

Leituras bibliográficas recomendadas pela Cátedra

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 8 ed. São Paulo: Edusp, 2000.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GOMES, Angela de Castro (coord.). História do Brasil Nação: 1808-2010, v. 4: Olhando para dentro: 1930-1964. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

QUEIROZ, Marcos. Assombros da casa-grande: a Constituição de 1824 e as vidas póstumas da escravidão. São Paulo: Fósforo, 2024.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SCHWARCZ, Lilia Moritz (coord.). História do Brasil Nação: 1808-2010, v. 3: A abertura para o mundo: 1889-1930. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.