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Que país é esse?

Matheus Mota Casimiro13 de outubro de 2026

Aprendi cedo que o Brasil se tornou independente em 7 de setembro de 1822. O grito às margens do Ipiranga, Dom Pedro I empunhando a espada, a ruptura com Portugal. A data chegava inteira, resolvida. Uma pergunta, no entanto, nunca vinha junto: independência para quem?

Sou estudante de Engenharia de Produção. A minha formação me ensina a pensar em processos, fluxos e eficiência. Não é uma área conhecida por provocar esse tipo de pergunta. E, honestamente, eu também não a provocava. Foi a Cátedra Reitor Antônio Martins Filho, programa de formação humanista da UFC em que participo como bolsista, que começou a abrir meus olhos para dimensões do Brasil que eu simplesmente nunca havia parado para olhar de frente.

A pergunta parece simples demais para ser séria. Mas ela atravessa quatro séculos de história com uma persistência desconfortável. Porque se olharmos com honestidade para o período que vai de 1500 até a Revolução de 1930, o que encontramos não é a construção de um povo, mas a construção de uma narrativa sobre um povo. Uma narrativa moldada, desde o início, para servir a quem já detinha o poder.

Darcy Ribeiro, antropólogo e escritor brasileiro que dedicou a vida a entender o que somos como civilização, chamou atenção em O Povo Brasileiro (1995) para os "Brasis" que foram descartados nesse processo. Não existe um único povo brasileiro: existiram povos, línguas, culturas, corpos. Indígenas que ocupavam este território há milênios. Africanos trazidos à força, transformados em instrumento de uma economia que dependia de sua desumanização. Mestiços, caboclos, pobres livres que viviam nas margens de uma ordem que não havia sido feita para incluí-los. A identidade nacional construída ao longo desses séculos não os apagou por acidente. O apagamento era a condição para que a narrativa funcionasse.

Raymundo Faoro, advogado e historiador gaúcho, escreveu em Os Donos do Poder (1958) uma das análises mais profundas sobre o poder no Brasil. Ele mostrou que o Estado brasileiro nunca foi uma criação coletiva: foi herdado de Portugal como propriedade de uma camada que se perpetuou no controle das decisões, da terra, dos recursos. A independência de 1822 não rompeu com essa estrutura, ela a consolidou sob uma nova bandeira. Os mesmos grupos que dominavam o Brasil colonial passaram a dominar o Brasil imperial. A grande novidade foi que agora podiam fazê-lo sem precisar prestar contas a Lisboa.

Sérgio Buarque de Holanda, historiador paulista e um dos maiores intérpretes do Brasil, oferece em Raízes do Brasil (1936) outra chave para entender esse período. A cordialidade que ele descreve não é sinônimo de bondade: é o hábito de agir pelo afeto e pela relação pessoal, e não pela regra que vale para todos. Aquela nossa famosa intimidade, portanto, não é um traço inocente da cultura brasileira. É também o avesso de uma dificuldade histórica de lidar com instituições impessoais, com leis que valem para qualquer um, com um espaço público que não seja extensão do espaço privado de quem manda. O patriarcalismo instalado nas primeiras décadas da colonização nunca foi completamente desmontado. Ele foi, em muitos momentos, apenas revestido com outros nomes.

Chegar em 1930 com essa bagagem é chegar com uma identidade nacional fabricada de cima para baixo. O romantismo do século XIX pintou o índio como figura nobre e distante, não como sujeito político presente. A miscigenação foi celebrada como síntese harmoniosa, não como história de violência e apagamento. O Brasil virou mito antes de virar nação. E esse mito teve uma função clara: produzir coesão sem redistribuição, pertencimento sem participação, orgulho sem consciência.

Isso não significa que não houve resistência. Houve. Quilombos, revoltas, religiões que sobreviveram à perseguição, culturas que se recusaram a desaparecer. A história do Brasil entre 1500 e 1930 não é apenas a história das elites que construíram uma narrativa. É também a história dos que foram excluídos dela e insistiram em existir assim mesmo. Mas é preciso nomear o que foi feito: uma identidade nacional foi forjada, ao longo de quatro séculos, em benefício de poucos, sobre o silêncio de muitos.

Levei tempo para chegar a essa pergunta, e não cheguei sozinho. Talvez o mais revelador não seja o que se aprende sobre 1822, mas o quanto é possível aprender sem que essa pergunta apareça. E ela não é, no fundo, uma pergunta histórica. É sobre o presente. Porque essa identidade incompleta e excludente ainda organiza parte significativa de como nos enxergamos como país. E enquanto não formos capazes de olhar para ela com honestidade, continuaremos celebrando independências que, para a maioria, nunca chegaram a acontecer de fato. Referências: FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 3. ed. rev. São Paulo: Globo, 2001.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.