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“Quem é, quem és e quem sou?” – Pistas para compreender a história do Brasil
Em julho deste ano, foi divulgada a notícia de que a Justiça autorizou uma indenização de cinco milhões de reais por danos à memória de João Cândido, líder da Revolta da Chibata, ocorrida em 1910. Mas o que essa decisão significa? O que ela nos revela sobre a história do Brasil? Buscando caminhos para dialogar com tais perguntas, me ancoro no pensamento da pensadora brasileira Lélia Gonzalez (2020), que afirma que a escravidão é uma das bases da formação da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, ela demonstra que muitas vezes esse passado é silenciado ou tratado como algo distante, sem relação com os problemas atuais. Seguindo essa reflexão, o pesquisador Marcos Queiroz (2024) utiliza a ideia de “razão antinegra” para pensar os mecanismos que contribuem para apagar contribuições da população negra na história do país. Diante disso, surge a questão: como recuperar histórias que foram esquecidas ou silenciadas? Nos últimos anos, há um movimento de busca de respostas a essa pergunta por meio de ações de reparação histórica, no sentido de revisitar o passado e incluir vozes que durante muito tempo foram excluídas das narrativas oficiais. A historiadora Lilia Schwarcz (2015) defende que a violência é um dos grandes nós da história brasileira, e sendo o racismo parte da estrutura da sociedade, a população negra foi e continua sendo uma das principais vítimas das desigualdades e das diversas formas de violência presentes no país. Nesse processo de reconstrução da memória, o pensador Nego Bispo (2023) fala da importância de questionar visões de mundo herdadas do colonialismo e aponta para a necessidade de valorizar os saberes produzidos por grupos historicamente marginalizados para reconhecer outras formas de olhar para o nosso passado. Neste contexto, reencontramos a história de João Cândido. Conhecido como “Almirante Negro”, foi uma liderança importante para a Revolta da Chibata, lutando contra os castigos físicos aplicados aos marinheiros, muitos deles negros e pobres, décadas após o fim da escravidão. Sua luta denunciou a permanência de práticas autoritárias e racistas na sociedade brasileira da Primeira República. Ao recuperar e valorizar sua memória, tensionamos os caminhos de compreensão do Brasil, reconhecendo as lutas da população negra e entendendo os desafios que persistem na construção da nossa sociedade . Por fim, retomo a pergunta que dá título à discussão: quem somos? Em diálogo com Nego Bispo, refletimos sobre a afirmação de que, quando a favela e o quilombo se juntarem, o asfalto cai (Bispo, 2023), pensamento que nos lembra da potência da cultura negra, das periferias e das comunidades tradicionais na construção do Brasil. Conhecer e valorizar essas histórias é um passo importante para superar visões limitadas sobre nosso passado e construir uma compreensão ampla sobre quem somos enquanto povo. Referências GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. QUEIROZ, Marcos. Assombros da casa-grande: a Constituição de 1824 e as vidas póstumas da escravidão. São Paulo: Fósforo, 2024. SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu, 2023. SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.